Ana Paula Violante

Ana Paula Violante nasceu na Foz do Arelho em 1965, de onde a sua família é natural. Deixa-nos um testemunho escrito das suas memórias na lagoa, e um conjunto de fotografias e documentos.

“O meu nome é Ana Paula Martins Violante, nasci na Foz do Arelho em 1965 e os meus pais, assim como os pais deles, também são naturais desta terra que eu adoro.

Quero dar o meu contributo para a preservação de memórias e saberes que de outro modo se iriam perder.

A minha mãe deu-me à luz em casa pelas 23h com a ajuda de uma parteira e conta que esteve a trabalhar na mercearia e taberna (que os meus pais exploravam) até chegar a hora, dito assim até parece que foi há muito muito tempo, no entanto pouco mais passou que cinquenta anos.

O meu pai nessa altura já andava a arranjar a casa dos Robalos, tomou-a de trespasse em frente à FNAT (agora INATEL) e foi aí que eu cresci, entre invernos de barrias, pesca à certela, eirozes da grossura dos braços do meu pai e verões que começavam a 15 de maio, com a fila dos campistas para conseguir o melhor lugar para a época estival, depois vinham as levas de emigrantes e até setembro era trabalho duro mas cheio de gente e muito animado.

Em 1994 eu, o meu irmão Leonel Martins Violante e dois bons companheiros, Artur Domingues e João Caldas, reunimos esforços e pusemos em marcha um plano de animação do Largo do Cais. Recolhemos material etnográfico da lagoa e com o apoio da Junta de Freguesia abrimos o posto de turismo da Foz do Arelho com a exposição “Pão do Mar, Terra de Pão”. A animação incluiu uma regata de bateiras à vara, atuações de ranchos folclóricos, a orquestra ligeira de Alvorninha e até bandas em início de carreira, como foi o caso dos Declínios.

Ao posto de turismo situado precisamente no Largo do Cais foram sendo chamados para mostrar o seu trabalho e trabalhar ao vivo, vários artesãos. Durante quatro anos, este posto de turismo funcionou com o espírito de divulgação e apoio a atividades locais com particular enfoque nas escolas.

Mais do que distribuir folhetos de informação aos visitantes, quisemos mostrar outras facetas desta Lagoa para assim muitos mais a quererem respeitar e proteger.

Todo o material doado ou emprestado por beneméritos conterrâneos ficou posteriormente à guarda da Junta de Freguesia com vista a um futuro museu.

Desde 1998 que trabalho na Cooperativa Agrícola do Concelho de Caldas da Rainha, um sector de atividade essencial mas tantas vezes mal-visto ou pouco apreciado. Antes disso fiz cerâmica artesanal baseada em olaria de roda e também fui calista. Adoro pôr mãos à obra, trabalhos palpáveis, fazer coisas que nos enchem os sentidos. Em 2019, dei corpo a um projeto de alojamento local com a pretensão de querer que quem nos visite fique também, pelo menos um pouco, enamorado pela nossa Lagoa.

Gosto de uma boa conversa e de dançar, também gosto de tocar o Búzio como a minha mãe, encher o peito e soprar até saírem aqueles sons de dentro de uma carapaça que já correu muitas mãos… têm qualquer coisa de melancólica saudade e… talvez o meu avô Marcelino me oiça nalgum lugar, e se lembre de quando íamos à pesca sentados no cais às maré-chombas.

“Só precisamos de um caniço, uma linha e anzol, iscamos com caracol e arranjamos almoço, não é avô?!”

Parece-me que os locais, assim como as pessoas são tanto mais interessantes quantas mais histórias tiverem para contar e a nossa Lagoa é tão farta em cheiros e sabores, tão colorida e diversa, contém tanta vida e vidas em si mesma, é um espaço único que é de todos e que devemos preservar para as novas gerações.”