Pedro Manuel Catalão Amiguinho – relato de uma experiência na Escola Superior de Polícia.

Pedro Manuel Catalão Amiguinho nasceu em 1965, em Luanda, Angola, é filho do comissário João  Francisco Amiguinho Passareiro. Regressou a Portugal em 1975 e frequentou o Instituto dos Pupilos do Exército. Entrou para a Escola Superior de Polícia em 1984.

Pedro Amiguinho nasceu em Luanda, filho do comissário João  Francisco Amiguinho Passareiro regressou a Portugal em 1975, quando o pai deixou a polícia de Angola após a independência deste país. Em Portugal, frequentou a escola dos Pupilos do Exército, o que antevia uma futura carreira militar: “Estando nos Pupilos as pessoas tentaram que eu seguisse pela carreira militar. Convidaram-me a ir num navio da Marinha. Eu disse que para a Academia Militar não queria ir. A Força Aérea podia ser uma possibilidade mas o meu curso, que era contabilidade, não dava para aquilo que eu queria, que era ser piloto. E não queria voltar atrás. E mandaram-me num navio da marinha para ver se eu reconsiderava as ideias. Recordo-me de estar em Las Palmas com outros colegas dos pupilos e dizer: eu, se abrir a Academia de Polícia, a Escola Superior de Polícia, eu vou para a polícia. Acabou por abrir em 84, quando eu acabei o 12º ano, e entrei. Éramos muitos candidatos fiquei em treze, no décimo terceiro lugar”.

“Nessa altura, fizemos provas físicas. Provas físicas que eram iguais para homens e mulheres. Razão pela qual não entram mulheres nenhumas no primeiro ano. Só entram homens. Era o teste de cooper, era o salto em comprimento, corrida em velocidade, 100 metros, não era 50, mas 100 metros, o salto do muro com um metro de altura, para ver a decisão de saltar o muro. Depois, foram psicotécnicos, exames médicos e, por fim, umas provas de situação. Umas de papel e lápis, em que, certamente, seria para avaliar o grau de consciência. Por exemplo, a mim calhou uma prova em que seria sair de uma prisão com uma série de pessoas, rodeada de uma série de obstáculos, e quais seriam as opções mais lógicas para eu sair. E, por fim, houve provas práticas na Academia Militar na Amadora, em que um grupo de jovens tentava fazer uma série de desafios com aspetos proibidos, outros permitidos, outros … pronto… passar um campo de minas, mais ou menos, e o que é que se fazia para salvar o maior número de pessoas. Não conseguimos superar, mas deu para ver o que cada um fazia em cada situação. Era difícil e acho que logo aí se viu que todos nós tínhamos carácter de liderança, tínhamos vertentes de liderança. E foi difícil conciliar os posicionamentos de uns com os posicionamentos dos outros, etc. Já o mesmo não se passou com o pessoal que já era polícia, que foram prestar provas na mesma altura e conseguiram superar a prova. Talvez fruto de estarem numa organização, conhecerem-se, pronto, e saberem julgar melhor as situações e resolver os problemas. E, talvez, também, era a imaturidade que nós tínhamos. Nós tínhamos 16-18 anos”.

“A Escola tinha três vertentes: uma vertente de cultura geral, com geografia, história, língua e literatura portuguesa; uma parte jurídica, que começou com Direito Constitucional, em que tivemos como professor o Jorge Miranda, logo como primeiro professor; e uma parte técnico-profissional, que começou com a organização policial, isto grosso modo. Portanto, estas três áreas distintas. Era clássica. Nós tínhamos metade, éramos trinta, metade era pessoal já policial, a outra metade era pessoal civil. Cerca de quinze-quinze. A formação tinha de ser muito exigente, tanto do ponto de vista psicológico, como moral, como físico. E foi muito exigente nesses aspetos, sobretudo, quando nós estávamos confinados a um espaço tão diminuto. Depois, à medida que os cursos foram entrando, as coisas foram-se facilitando. Mas, foi sempre de uma exigência muito grande a nível psicológico”.

“O curso era de cinco anos, quatro letivos e um quinto de estágio, e depois o ano seguinte como chefes de esquadra. E, nós, podíamos ter esquadras com trinta, quarenta pessoas, como podíamos ter esquadras com duzentas. Éramos chefes de esquadra. O primeiro ano era chefe de esquadra, depois era subcomissário, depois foi abolido o posto de chefe de esquadra e passou a ser tudo subcomissário. Por exemplo, eu apanhei uma esquadra, a da Praça do Comércio, com cerca de duzentos homens, com duzentos homens a fazer gratificados. Portanto, ninguém pensava ter no exército um alferes ou um tenente a comandar duzentos homens. Portanto, o grau de responsabilidade era muito grande e, depois, numa área sensível que é a área da liberdade das pessoas, dos direitos humanos, dos direitos pessoais”.

A polícia daquela época era “uma polícia solidária, em que, por vezes, posso falar abertamente, em que por vezes, era preciso defender o guarda de alguns excessos que provocava, porque não estava preparado também para eles. Era uma polícia de transição, ainda muito no domínio da eficácia, que primava pelos resultados, e ainda não pelas liberdades e garantias. Nós chegamos lá nessa altura em que se começa a pensar. Nós éramos aquela geração de charneira em que era preciso avaliar os direitos, liberdades e garantias, os direitos dos próprios agentes, e a realidade da instituição”.

Registo: Martim Arinto.

Entrevista realizada por: Ana Sofia Ferreira.

Entrevistado: Pedro Manuel Catalão Amiguinho.

Câmara: Luísa Seixas.

Data da Entrevista: 8 de julho de 2016.

Texto: Ana Sofia Ferreira.

 

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