Maria Jorgete Teixeira

“25 de Abril. Era para ser um dia como os outros”

O 25º dia do mês de Abril de 1974 era para ser um dia como os outros. Mas tinha sido gerado nessa noite e noutras antes dela, entre a revolta e o medo, entre o amor à liberdade e a coragem. E uma madrugada clara, prenhe de braços, vozes e passos, tinha nascido sem eu dar conta. Apanhou-me de surpresa naquela sala de um 6º andar de uma rua do Lumiar, em Lisboa.
Era para ser um dia igual aos demais, com as suas rotinas, as suas dores, as suas angústias, as suas asas e o seu medo. O medo, definido na gramática como substantivo comum, masculino do singular era, naqueles tempos, um nome concreto, sem gênero, plural e comum a todos. Físico como uma pedra nos rins. O medo que não impedia que pela calada da noite pichássemos as paredes com palavras de ordem contra a guerra colonial, ou desafiássemos os “gorilas” na Faculdade de Direito de Lisboa onde andava.
Porém esse dia 25, do mês de Abril, não iria ser um dia normal, embora só tivesse dado conta disso quando saí para levar a Inês, a minha filha mais velha, à creche, situada um pouco mais à frente do quartel da EPAM, na Alameda das Linhas de Torres.
A creche estava fechada e não havia ninguém para dar explicações. No super mercado da rua, notei um movimento pouco habitual para aquela hora, as pessoas entravam e saíam mudas, carregadas de sacos e de olhos baixos.
A rádio que liguei, mal cheguei a casa, transmitia música clássica e a ausência da voz do locutor era marcadamente estranha, até que na TV o Fialho Gouveia lê o comunicado do Movimento das Forças Armadas. O coração entrou em alvoroço e já não mais se acomodou…
Depois chegou-nos o som da marcha militar e o comunicado repetido ao longo do dia mandando-nos ficar em casa.
Fiquei, de início. Estava grávida de 7 meses e tinha uma outra menina que iria completar um ano três dias depois. Arroubos e inconsciências da juventude aliados a um ventre fértil com que a natureza me dotou…
Colada às notícias, comecei a fazer um saco de ganga, daqueles que a moda hippie ditava, inteiramente feito à mão, com umas aplicações de pano formando uma flor e debruado a vermelho, num ponto cruzado. Não me lembro de muito naquele dia, mas não me esqueço do saco a tiracolo que usei até se rasgar. Ainda o guardei durante um tempo até que se perdeu, já nem sei como, numa das andanças da vida.
Pouco sabíamos dos passos e dos segredos que aquela noite e outras antes dela tinham acolhido.
Cautelosa, esperei em casa presa de esperança e de esperanças… Os homens tinham saído. A assuntar o sucedido. Pensavam que não era assim em casa de revolucionários? Desenganem-se, em situações de escolha eram sempre eles que saiam…
Fui até à baixa, passei pelo Rossio, a abarrotar de gente, vozes, punhos, cravos, carros de combate e um sol esplendoroso nos olhos de todos.
Subi o Chiado onde ondas de gente em rebuliço se deslocava em correntes de sentido contrário, enquanto se ouviam tiros para os lados da António Maria Cardoso. Só ao fim do dia soube que tinham sido mortas pessoas…
Incomodava-me um pouco a barriga túrgida, mas não conseguia ficar longe das ruas que ferviam de risos e de esperança. Tínhamos passado tanto tempo na escuridão que a luz extrema nos incomodava os olhos e não sabíamos o que fazer às palavras e aos braços. Éramos como pássaros a sair do ninho, entontecidos ensaiávamos voos sempre com medo de que nos estatelássemos no chão, ou que garras mortais nos aprisionassem. Nenhum dia teve ainda uma luz assim tão clara…

Relator: Maria Jorgete Teixeira
Autor: Maria Jorgete Teixeira; Filipe Guimarães Silva

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