Maria Carolina Pacheco Cunha Clemente – “O 25 de Abril foi um bocadinho complicado”

[Maria Carolina Clemente nos Dias da Memória da Polícia, no Museu da Polícia, a 9 de julho de 2016]
Maria Carolina Pacheco Cunha Clemente entrou para a polícia em 1972. Estava em Santa Marta, na Divisão de Trânsito, quando se deu o 25 de Abril de 1974 e acompanhou algumas manifestações do período revolucionário, como a do 1º de Maio. Entre 1975 e 1976 trabalhou no aeroporto de Lisboa e, depois, voltou à Divisão de Trânsito, onde ficou até se reformar.

“Foi na altura do doutor Marcelo Caetano que abriram os concursos para a polícia. Eu trabalhava num laboratório farmacêutico, em Lisboa, em Benfica. Em conversa com outra colega, e tal vamos concorrer, vamos concorrer. E eu lá fui inscrever-me. Depois, fomos às provas físicas, no Restelo. Eram correr, era saltar, pronto, a gente preparou-se minimamente. E que mais? Pronto, era a corrida e depois saltava-se. Pronto, era assim uma coisa básica. E daí, depois, fomos para a Escola Prática. Tivemos três meses, só três meses, educação física, defesa pessoal, carreira de tiro, pronto, três meses que passaram num instante”.

“Entretanto, deu-se o 25 de Abril e eu já estava na PSP. Eu estava na PSP antes do 25 de Abril. Estava em Santa Marta, na Divisão de Trânsito. Estava na Divisão de Trânsito e acompanhei essa evolução toda, aí na rua, essa euforia toda, era uma confusão”.

No serviço de trânsito “fiz o Chiado, a Ribeira das Naus, porque nessa altura havia ainda os sinaleiros, os homens, então, eles faziam três horas de serviço, e a gente, na hora de ponta e assim, a gente ia fazer o serviço deles, aqui no Chiado, no Martim Moniz, em certos locais em que havia mais afluência de trânsito e, depois, fazíamos isso. Eu andei … estive lá uns anos. Estive até 75 na Divisão de Trânsito. Depois, em 75, houve aquela afluência de pessoal que veio do Ultramar e precisaram de pessoal no aeroporto. Eu fui para o aeroporto. Fazia o serviço de trânsito cá na rua e, depois, fiquei dentro na fiscalização aos passageiros. Estive lá de 1975 a 1976”.

“O 25 de Abril foi um bocadinho complicado, foi um bocadinho complicado, porque, é assim, havia muita gente na rua, muita gente na rua, e as pessoas pensavam que a liberdade era poder fazer tudo. Eu, lembro-me que no 25 de Abril já estava no trânsito e fui fazer, havia as manifestações, não é, e eu fui para a manifestação do Primeiro de maio, na Alameda D. Afonso Henriques. Foi complicadíssimo. Olhe, nesse dia choveu tanto. Choveu tanto, que cheguei toda molhadinha a casa. Mas, a confusão era tanta e, pronto, a gente era obrigada, pronto, a gente ia fazer aquele policiamento e não podia ser dispensada de fazer. Pronto, após o 25 de Abril fui para o Primeiro de maio, que foi a maior confusão que se podia prever, não é. As pessoas estavam naquela euforia, e tal e coisa, e não sei o quê. Nessa altura, estávamos num período, em que a gente, pronto, tínhamos que … por exemplo, as pessoas manifestavam-se mas não era em conflito, percebe? Quer dizer, comigo nunca aconteceu. Eu estava ali para regular o trânsito. Não era a situação da esquadra. Quer dizer, a situação do pessoal da divisão é uma coisa, a situação do pessoal da esquadra é outra. Portanto, o pessoal da esquadra é mais restritivo, mais coisa, nós era dedicado só mesmo a regular o trânsito, para não haver confusões, para não haver atropelamentos e aquelas coisas todas, porque as pessoas naquela altura não pensam em nada, não é? Mas, na minha situação, pronto, naquilo que eu trabalhei, que fazia, que me estava determinado fazer, era realmente regular o trânsito e estar atenta a movimentos estranhos”.

“Eu trabalhei algum tempo, antes de me vir embora, trabalhei na secretaria, na parte dos computadores, como é que hei de explicar, era a parte informática, de registo dos carros. Nós éramos seis colegas e fomos fazendo rodízio para estarmos ali, porque havia a operação STOP e a gente tinha de trabalhar de noite para a identidade dos condutores, para ver se o carro constava para apreender, se o carro era roubado, tínhamos essa informação”.

“É uma vida, vinte e oito anos e seis meses que eu estive a trabalhar, noites, chuva, sol…”

Maria Carolina Clemente organizou um álbum de fotografias da sua carreira profissional como agente da PSP.

A primeira fotografia foi tirada ainda antes do seu juramento, quando frequentava a escola superior em Alcântara, em 1972.

 

 

A fotografia que se segue regista um momento do dia de juramento da agente, acompanhada pela mãe, a 26 de abril de 1972.

 

Duas fotografias retratam a agente em serviço, na rua. A fotografia da esquerda foi tirada por turistas, em 1973 ou 1974, no Cais do Sodré. À direita, vê-se a agente na Feira Popular.

 

Os 10 anos de serviço como operadora do terminal de computador foram registados com uma fotografia de louvor.

 

E, por fim, as condecorações dos 10 anos de serviço.

 

Registo: Martim Arinto.

Entrevista realizada por: Ana Sofia Ferreira.

Entrevistado: Maria Carolina Pacheco Cunha Clemente.

Câmara: Claudia Filipe.

Data da Entrevista: 9 de julho de 2016.

Digitalizações: Yvette dos Santos.

Texto: Ana Sofia Ferreira e Rita Guerra.

 

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