Manuel Bastião Novo – uma vida de nómada

[Manuel Bastião Novo nos Dias da Memória da Polícia, no Museu da Polícia, a 9 de julho de 2016]

Manuel Bastião Novo nasceu a 23 de setembro de 1938, na aldeia de Salgueiro, no concelho de Vagos, distrito de Aveiro. Em 1962 foi incorporado na PSP de Lisboa, e em 1965 foi para Angola, integrado na Companhia Móvel. Em 1967, regressou a Aveiro, fez o curso de subchefe e foi para os Açores, destacado para o aeroporto de Santa Maria. Em 1973, já como chefe de esquadra, regressou a Angola para chefiar uma esquadra em Cabinda. Regressa a Portugal em 1975 e vai chefiar a esquadra de Ovar. Faz o curso de comissário e neste posto passa pelos comandos de Viseu, Aveiro, Lisboa, Espinho e Horta. Acaba a carreira como subintendente.

“Fiz a vida militar em 1959, numa unidade militar que havia em Aveiro, que já demoliram. Ali, eles deram-nos panfletos para poder concorrer à polícia ou à Guarda Nacional Republicana. Em 1961, concorri e fui chamado para prestar provas no Comando da Polícia do Porto, em outubro/novembro de 1961. Fiquei aprovado. No ano seguinte, em abril de 1962, fui incorporado para a PSP de Lisboa”.

“Juramos bandeira num estádio que existe cá em Lisboa, que é o Estádio 1º de maio, lá para aquelas Avenidas Novas. Depois, naquela altura, havia pedidos para o pessoal para ir para a Companhia Móvel, sediada na Parede, que era uma espécie de polícia de choque. Estive durante dois anos na “Parede.

“No final de 1965 fui para Angola. Eu tinha-me oferecido para ir para Angola. Era aquele espírito aventureiro, conhecer outras gentes, outros mares, outras nações. Então, fiz uma comissão de dois anos em Angola, de 65 a 67”.

“Em Angola estava numa esquadra em Catete. Nos primeiros tempos, andei lá com aquelas patrulhas, lá por aqueles bairros, bairros de lata, bairro de tudo, um género de patrulhas, tínhamos de andar de botins por causa dos mosquitos, por causa de não sei o quê”.

“Em 1967, no Dia de S. Martinho, dia 11 de novembro, nesse dia embarquei de regresso à metrópole e fui colocado em Aveiro. Entretanto, tinha lá feito, no final da comissão, as provas de admissão para segundo subchefe. E em Aveiro, em maio de 1968, fui chamado para a Escola Prática de Polícia para frequentar o curso de sub-chefe. Estive lá o resto de 1968 e, depois, em janeiro de 1969, fui promovido a segundo subchefe e caiu-me na roleta Ponta Delgada, Açores. Portanto, fui parar aos Açores, mas, depois tive lá um destacamento para o aeroporto de Santa Maria e estive lá dois anos”.

“Vim concorrer a chefe de esquadra em 1973. Como chefe de esquadra fui outra vez parar a Angola. Era chefe de esquadra em Cabinda, uma cidade pequenina. E então, eu dali vou para um destacamento para o norte de Cabinda, a vinte e oito quilómetros, mais ou menos, chamado Malongo, que era onde havia a exploração da Cabinda Gulf, uma companhia americana, na exploração lá das plataformas e eu fui comandar esse destacamento.  Ali estive vinte e um meses até que se deu o 25 de abril, que nós só soubemos passado dois dias”.

“Em maio de 1975 começou a debandada, começou a debandar as tropas, a polícia, a  guarda fiscal, a PSP, e outras entidades, alfandegários, funcionários dos caminhos de ferro que quisessem vir, vinham embora para Portugal. Começou a chamada Ponte Aérea, em que os aviões da TAP e inclusivamente os militares, chegavam lá, carregavam e vinham embora. Portanto, e eu fui dos primeiros, dessas primeiras levas. Apresentei-me, depois de vir, apresentei-me aqui na Polícia de Lisboa e, depois, estive aqui uns meses, uns quatro meses a chefiar a esquadra de Arroios […]. Depois, abre uma vaga em Aveiro. Eu tinha pedido para ir para lá. A vaga não era bem na cidade mas era na esquadra de Ovar. Eu, interessava-me era vir para a cidade, porque de Ovar a Aveiro ainda são aí quarenta e tal quilómetros e eu em Aveiro estava pertinho de casa”

Em 1976, decide concorrer a comissário e é já como segundo comissário que vai para Viseu, onde esteve um ano, tendo regressado depois a Aveiro, onde ficou cinco anos. “Então, ao fim de cinco anos, veio uma promoção a primeiro comissário e, pronto, e eu vim para Lisboa, para o Comando Geral, Penha de França. Pronto, e estive ali cinco anos, no Comando Geral. Ao fim de cinco anos, tenho uma vaga em Aveiro e volto para Aveiro. A certa altura estou ali cinco anos e abre uma vaga em Espinho, e eu vou para Espinho, em 1994 até 1996, mais ou menos. Ao fim de lá estar um ano e tal, subo a comissário principal e vou para a Secção da Horta. Foram vinte meses. Devido a reformas ministeriais os comissários principais passam a subintendente e lá passo eu como subintendente. Era subintendente e, prontos, aqui termino a minha carreira. Ainda estive três anos em Aveiro como sub-intendente e depois fui para a reforma”.

“Eu vejo a polícia, olhe, não vou agora dizer em relação ao meu tempo, porque isso seria ser saudosista e seria não ver a evolução. A polícia evoluiu muito, muito, muito, muito, muito. A polícia de hoje tem a parte técnica, as pessoas hoje têm habilitações, têm muita coisa. A parte de viaturas, também, tudo evoluiu. Mas, há coisas em que não evoluiu muito. Aquele companheirismo, aquilo que havia outrora, amizade e tal, hoje não”.

 

O subintendente Manuel Nunes Bastião Gomes conservou várias peças de uniforme da PSP utilizadas em diversas cerimónias, designadamente quando se apresentou no Comando Geral, na Penha de França em Lisboa, nos Açores ou no Dia da Polícia em Aveiro. Utilizou também algumas das peças como sub-intendente, na Horta.

O conjunto é composto por  dólmen e calça, blusão, boné, bivaque, cinto de cerimónia, luvas de pelica pretas, luvas de pelica brancas, três cordões com agulhetas de oficial e graduado, cinto de cabedal com gancho para espada e pingalim.

 

Registo: Martim Arinto e Mariana Castro.

Entrevista realizada por: Graça Barradas e Ana Sofia Ferreira.

Entrevistado/a: Manuel Lopes Martins.

Fotografias: Rita Guerra e Yvette dos Santos.

Data da entrevistA: 9 de julho de 2016.

Textos: Ana Sofia Ferreira e Rita Guerra.

Deixar uma resposta