Luís Manuel Dias

“Um dia de nervos”

Hoje passam quarenta anos do 11 de Março. Não resisti a relatar o episódio que então vivi na primeira pessoa.
Estava a almoçar no refeitório do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), de frente para a janela grande, quando eu e todos os presentes presenciámos o raid de aviões e o posterior ribombar de tiros.
Foi também por essa altura que o nosso colega Rui G. Henriques entrou completamente espavorido, dizendo que estávamos a ser atacados e que, logo que pudéssemos após o almoço, teríamos uma Reunião Geral de Trabalhadores (RGT), que aconteceu por volta das 2 da tarde e onde foi decidido partirmos todos em manifestação e em defesa da democracia. Não sem antes ter sido decidido que a carpintaria serraria todas as tábuas que pudesse, para fazer varapaus, de forma a termos alguma defesa no caso de tudo dar para o torto.
Lá partimos em manifestação pela Avenida do Brasil abaixo, com slogans como “viva o 25 de Abril”, entre outros. O objectivo traçado em RGT era o de defender as instalações da RTP na Alameda das Linhas de Torres. Passámos pelo quartel do Campo Grande, hoje Universidade Lusófona. Eu vinha atrás da manifestação com o engenheiro Silva Alves, porque por esse tempo ambos pertencíamos à comissão executiva incumbida da extinção da PIDE/DGS no LNEC e estávamos na posse de informação sobre pessoas que também iam na manifestação. O Eng. Silva Alves dizia-me: “vamos atrás, porque se isto der para o torto não sabemos para que lado eles malham”.
Por alturas do referido quartel todos se calaram, pois só víamos as ponteiras das G3 apontadas para fora das janelas, particularmente as mais altas que eram as que vislumbrávamos, e não sabíamos de que lado as tropas estavam. Houve um silêncio sepulcral durante uns segundos que pareceram horas, até que um militar do lado de dentro gritou “viva o 25 de Abril” e então aí foi a explosão do nosso lado e lá seguimos a nossa epopeia direitos à Alameda. Já perto da Alameda, fomos abordados por militares que estavam a defender aquele que era para nós o lado certo da revolução. Foi aqui que desmobilizámos. Seriam talvez 4 da tarde e alguns foram para a porta da RTP ver o que se passava, enquanto eu e o Rui G. Henriques decidimos ir (a pé) até ao RALIS saber como estavam as coisas.
Aqui iniciou-se o episódio mais rocambolesco, não sei se deste período, se de toda a minha vida. Encontrei o meu amigo e colega de escola Paiva a cumprir serviço militar no RALIS. Enquanto falávamos, ele estava dentro do quartel, sem poder sair, e eu fora. Lá trocámos “conversa”: ele falava do que se passava dentro e eu do que vira fora do RALIS. Depois disto, ele pediu-me que quando fosse para Almada passasse por casa da mãe e lhe dissesse que tudo estava bem com ele, pois telefones não havia e telemóveis ainda não tinham sido inventados.
Ora, por mim tudo bem. Prestaria esse serviço a um amigo de bom grado e até inchado por participar desta forma numa acção de mérito quase militar. Mas o que aconteceu depois quase me deixou traumatizado. Chegado perto da casa dele, junto ao largo do chafariz da Rua Capitão Leitão, dei de caras com uma multidão em polvorosa, particularmente quando perguntei se era ali que morava o Paiva e disse que queria transmitir uma mensagem á mãe dele. Tentei em vão dizer à mãe do Paiva que tinha estado com ele e tudo estava bem. O que é facto é que a senhora pensou que eu era militar e vinha dar uma má noticia e não a consegui convencer da veracidade do que lhe contava. Os vizinhos cercaram-me, pedindo-me que lhes contasse a verdade, e por mais que insistisse não consegui convencê-los. Depois de muita insistência, tive que abandonar o local, com a convicção de que só quando o Paiva voltasse, um ou dois dias depois, os meus argumentos triunfariam.
Assim foi o que aconteceu.

Relator: Luís Manuel Dias
Autor: Luís Manuel Dias; Pedro Serra

Deixe uma resposta