Luís Dutschmann

 

 

SINOPSE

Luís Dutschmann, morador do Bairro Azul desde 1941, tem-se dedicado ao registo escrito das memórias da sua infância e do bairro onde cresceu, centradas principalmente na Avenida Ressano Garcia. Recorda o Bairro habitado por uma média-burguesia, onde viviam tanto figuras públicas como vários comerciantes, cuja actividade era muito importante para a vivência do Bairro e servia como pontos de referência e encontro, principalmente durante os anos 1940 e 1950.

Lembra vários aspectos da II Guerra Mundial, como os vidros protegidos, as senhas de racionamento, os balões cativos e o fim do conflito, marcado pelo medo de represálias pela ascendência alemã. Em criança, brincava com todas as crianças do Bairro na rua, e frequentou, entre outros, o Colégio Alemão, o Colégio Valsassina, a Escola Oficial de S. Sebastião da Pedreira, o Liceu Camões e o Colégio Moderno, até ir para a Faculdade de Medicina de Lisboa. Ia várias vezes aos cinemas Império, Monumental, Tivoli e S. Jorge, bem como à Feira Popular. Assistiu à construção de novos prédios, da Escola Marquesa de Alorna, e da Mesquita de Lisboa, que ocuparam espaços anteriormente agrícolas e antigas quintas. Recorda, também, o diferente uso dos espaços, principalmente com o fim da II Guerra Mundial e o 25 de Abril, e a construção da Gulbenkian.

Trabalhou até aos 55 anos no Hospital de Santa Maria, tendo acompanhado as alterações à sua volta. É actualmente o presidente da Associação Portuguesa de Lúpus.

FICHA DE ENTREVISTA

Entrevistado: Luís Dutschmann
Entrevistador: Luísa Seixas, Sofia Diniz, Ana Alves Sousa
Data da entrevista: 10 de outubro de 2016
Edição de vídeo: Ana Francisca Bernardo

Em Janeiro de 1945 caiu um nevão sobre Lisboa. Fiquei encantado. Os rapazes mais velhos fizeram bonecos e bolas de neve, as quais atiravam uns aos outros.

No dia 21 de Maio de 1945 e a 9 de Setembro de 1946 nasceram os meus irmãos mais novos. Nessa altura, com frequência, avistavam-se muitas cegonhas por cima do nosso Bairro. Eu e os meus amigos, muito atentos, vigiávamo-las, na esperança de vê-las transportar os bebés, nos seus bicos.

Das três ruas que constituíam o Bairro Azul, a Av. Ressano Garcia, a do meio, era larga, com prédios bonitos, passeios amplos e arborizada. Durante o período da minha infância e adolescência, manteve-se imutável como uma pequena aldeia, onde todos se conheciam, transbordando de familiaridade, amizade, compreensão e bisbilhotice. Uns quatro prédios adiante, terminava na quinta do senhor Daniel. Esta parecia-nos muito grande, confinava a poente com uma azinhaga que ia de Campolide a Palhavã, a sul com o quartel de Caçadores 5 e a Norte e Nordeste com a Estrada de Palhavã, Jardim Primavera, Colégio Alemão e Embaixada de Espanha. Era atravessada por uma estrada de terra batida e inúmeros trilhos. Logo no início da estrada encontrava-se um marco geodésico gigantesco e de significado desconhecido, a que chamávamos a garrafa, por motivo da sua forma. No local onde fica a Escola Marquesa de Alorna, havia uma cratera, o Poço da Morte, e mais acima chegou a haver um agradável olival que foi destruído e substituído por trincheiras para exercícios militares. No extremo noroeste encontrava-se um pequeno agregado residencial e rural, com a vacaria. Junto passava a já referida azinhaga, bordejando a quinta do Colégio Alemão (hoje teatro a Comuna). O local exacto desta descrição estende-se pela Mesquita, prolongamento da Ressano Garcia, Escola Marquesa de Alorna, Teatro a Comuna e Avenidas Gulbenkian e Malhoa. Anualmente, parte do terreno era lavrada e semeada com trigo ou outro cereal. Na quinta-feira de espiga, quando era possível, fazíamos raminhos com flores silvestres, papoilas e espigas que apanhávamos cautelosamente na seara. Foi neste local que contactei com o mundo rural. Vi vacas, assisti a mugi-las senti o odor do leite acabado de colher misturado com o do estrume de vaca. Atrás da Embaixada de Espanha havia um tanque redondo com margens crenadas, circundado por um muro alto. Nesse muro havia nichos vazios e no local oposto à embaixada encontrava-se um portão de ferro gigantesco que dava acesso a um túnel cuja profundidade se perdia na escuridão. A este conjunto, rodeado por ulmeiros, chamávamos a mina. Era costume as crianças mais pobres nadarem no tanque e de imediato, serem perseguidos pela polícia. Seria por estarem nus? Ou por ser perigoso? Talvez só para reprimir! Foi neste local que vi pela primeira vez girinos (os bichos cabeçudos) e os correlacionei com a metamorfose das rãs.

Numa época em que era escasso o número de automóveis, a “rua” e as “terras” constituíam um autêntico Jardim infantil. Assim tornou-se um hábito o ir “brincar para a rua”. Quando éramos muito pequenos íamos com as criadas de fora, por vezes com lanche, passar a tarde para o olival. Nesse local, por causa de uma disputa sobre bichos-de-conta, o Arsenico (filho do Prof. Arsénio Cordeiro) esmagou-me um dedo com uma pedra. Crescemos e mudámos de jogos: aos Cow-boys, Índios, policias e ladrões, ao eixo, ao alho, berlinde (bilas), caricas na borda dos passeios e pião. Ainda me lembro de algumas frases do bilas:

— Sem piras dois!

— Marralhões!

Também, graças ao escasso movimento automóvel, aprendi a patinar na rua e a fazer desafios de hóquei – em – patins. Neste meio, arranjei inúmeros amigos: os Toés (Manuel, António, Pedro, João Maria e Nuno Viana Machado), os Gordinhos (Pedro, José, Teresa, Bebita e Carrapita Sotto-Mayor), Nelo, Pedro João de Almeida, Arsenico, Rui e José Sande, Zéquinha (José Maia Loureiro), Gar (Henrique Minoia Peres), Bubi e a sua irmã Ingrid, Alberto, Necas, Jossle, Fradle, Isabelinha, Ana Maria e Mariazinha, Manecas, Susana Camarinha, os meus irmãos mais novos, não esquecendo as Espanholas (Carmen e Dolores).

Um pouco mais velhos começámos a namoriscar as belezas locais e a jogar ao Ringue com equipas mistas.

Por vezes, para cortar a monotonia resolvíamos declarar guerra à rua Ramalho Ortigão ou à rua Fialho de Almeida. As hostilidades constavam de provocações, arruaças e, de quando em quando, cabeças partidas. O verdadeiro perigo surgia quando, tal qual vândalos, a “malta de Campolide” invadia o bairro e então “pernas para que vos quero…”. Eram assustadores.

Nos dias tépidos do Outono, em finais de Setembro, aguardávamos o começo das aulas. No início de Dezembro, sentíamos o cheiro a Natal e ante gozávamos as férias. Uma data patriótica inaugurava o mês, o 1º de Dezembro, altura em que eram exaltados os feitos de 1640. Em grupos de quatro ou mais, os Céguinhos, lado a lado, com ar imponente, costumavam percorrer a avenida, no meio da rua, a tocar o hino da Restauração:

— Portugueses celebremos o dia da redenção em que valentes guerreiros nos deram livre a Nação, etc.

Na semana que antecedia o Natal, apanhavamos musgo e pedra para o presépio e só descansávamos quando se comprava o pinheiro. A decoração deste era sempre feita pela minha Mãe que o colocava num balde com terra ou pedras, rodeava a base com uma colcha dourada e com dragões. Na base, sobre o musgo, dispunha as figurinhas do presépio e junto ao tronco colocava sempre a mesma cabana, que ia ficando mais deteriorada, de ano para ano. A árvore era decorada com fios dourados, algodão, bolas de todas as cores e velas de cera, que só se acendiam na noite de Natal. Nós rodeávamos a minha Mãe e íamos fornecendo o material. Na consoada juntava-se a família.

Em Janeiro recomeçavam as aulas e os dias pareciam mais tristes. Após o dia de Reis, desmanchava-se a árvore de Natal e a nossa casa era invadida pelo cheiro a cera. Nos dias frios a minha Mãe estava sentada na marquise da casa de jantar, próxima do fogão de petróleo, fazia tricot, bordava ou passajava a roupa, ou mais raramente cosia na máquina de costura. Vinha em seguida o mês de Fevereiro, habitualmente frio, que trazia consigo quase sempre o Carnaval. Aproveitávamos, esta época para lançar o trique-traque, os estalinhos, utilizar as bisnagas e as terríveis garrafinhas de mau cheiro. Nessa altura, a rua enchia-se com cegadas. Lembro-me de algumas, como homens com uma boneca atada à barriga simulando cavalgá-la e que cantavam o seguinte:

— Dá cá maleca pr’á Boneca, dá cá maleca prá velhinha, dá cá maleca q’é bem girinha, dá cá maleca prá pinguinha.

Em Março as ruas eram invadidas pelo odor das flores. Assim como hoje, adorava sentir o cheiro da madressilva que pairava junto ao jardim da então Feira Popular, parque de Santa Gertrudes (hoje Gulbenkian).

Em Abril era mês da Páscoa, nunca festejada com solenidade idêntica ao Natal. Para nós crianças, era difícil sentir o luto de quinta e sexta-feira Santas. Evitávamos cantar e ouvíamos apenas música clássica que era a única que a rádio emitia. Se queríamos ir ao cinema só tínhamos “O Rei dos Reis” ou algum filme similar. No Sábado de Aleluia voltava-se à normalidade e no Domingo de Páscoa, realizava-se um almoço de família. Quando éramos pequenos distribuíam-se ovos de chocolate, que acreditávamos, ou fingíamos acreditar, serem oferta do coelhinho da Páscoa.

Em Junho, nos anos sem exame, acabavam as aulas e em Julho fazíamos exames, sob calor intenso, com casaco e gravata. Na véspera dos Santos Populares lançávamos fogo de artifício das janelas, mas como era caro, esgotava-se em poucos minutos. Um pouco mais velhos, fazíamos arraiais nas traseiras dos prédios e saltávamos à fogueira. Houve um Santo António em que dancei à volta da fogueira com a mão dada a uma namorada. Quando acabavam as aulas ou finalizavam os exames, íamos sempre à Feira Popular. Em Agosto e Setembro estávamos de férias, quase sempre, passadas em Lisboa.

Durante o ano, o bairro era invadido por vendedores, pequenos artífices ou saltimbancos que se anunciavam com pregões notáveis que ecoavam pela Rua. De manhã, acordávamos com o Sr. Américo, a gritar:

— Diário de Notícias, Século.

O jornal uma vez dobrado, e transformado numa espécie de disco, era lançado para as varandas dos prédios com perícia de discóbolo.

As peixeiras diariamente gritavam:

Ó pescadinha, ó carapau.

O pregão musical de algumas vendedoras:

— Quem quer figos quem quer almoçar? Ó figuinho de capa rota!

Havia outros que se ouviam com frequência:

— Funileiro à porta! — Era o pregão deste artífice

— Bolacha Americana! — Era o anúncio, acompanhado de uns gritos esganiçados, deste estranho vendedor.

— Quem tem trapos, ou garrafas para vender? Ferro-velho à porta!

— Esquimó fresquinho – gritava o vendedor de gelados, acompanhado pelo toque de campainha do seu veículo.

O trinar melodioso da flauta de pã, era a nota do amolador, sempre acompanhado do seu aparelho, cuja peça fundamental era uma roda de carroça com funções duplas: uma para a deslocação, outra para colocar uma correia de couro sem fim ligada à pedra esmeril, onde se afiavam as facas. Este trabalho, assim como o dos funileiros era realizado na borda do passeio.

Dentro dos espectáculos de rua, os Saltimbancos deixavam os nossos olhos maravilhados. Ao rufar do tambor, surgiam umas miudinhas magras, com umas saias curtas de cetim colorido, a darem saltos mortais para a frente e trás, enquanto que uma cabra subia um escadote e ficava com as quatro patas numa pilha de latas. Os homens lançavam tochas ao ar que faziam girar com uma certa arte. Por vezes cuspiam petróleo da boca que se incendiava em contacto com as chamas e, mais raramente, engoliam espadas. Os saltimbancos tinham sempre audiência, embora a receita fosse magra.

Mas, o mais cativante era os Robertos com as suas cenas maniqueístas de paulada. Os bons sovavam os maus acompanhados pela voz fininha que vinha por detrás da barraquita portátil.

Por vezes, aparecia na rua o Catitinha. Era um velhinho forte e de cabelos brancos que andava com um apito de árbitro e apertava a mão somente às crianças. Obrigava os automóveis a pararem de forma que as referidas crianças pudessem atravessar as ruas sem perigo.

O Chico engraxador, era uma figura constante na rua. Rondava os 30 anos, tinha uma doença neurológica com atrofia de alguns músculos das mãos, o seu cabelo era ralo e arruivado. Desdentado e sorridente, sentava-se na borda do passeio onde engraxava os sapatos das famílias do bairro que o queriam ajudar.

Durante grande parte da minha infância a rua terminava no número 28 e no número 37. Por volta dos anos 50 construiu-se o número 30 que passou a ser denominado de “prédio novo”

Do lado dos números pares só existia comércio no 12 e 14. No primeiro havia uma capelista, a menina Irene, onde comprávamos lápis, borrachas, cadernos, “O Cavaleiro Andante”, “ O Mundo de Aventuras”, estalinhos, bisnagas, e caraças. A partir de certa altura passou a existir neste local e em conjunto uma apanhadeira de malhas das meias de seda das senhoras. No número catorze existia um marceneiro.

O lado ímpar iniciava-se com o café do Senhor Dias que fazia esquina para a Rua Marquês de Fronteira, seguia-se a garagem de recolha que ocupava o rés-do-chão do primeiro edifício. No número 5 encontrava-se a Drogaria do Senhor Marques. Esta vendia de tudo: Lixívia, papel higiénico, cera, goma-arábica, DDT etc. Com ponto de ligação na drogaria encontrava-se o Senhor Jaime que era uma figura indispensável do bairro. Era um SOS “bricolage”: electricista, desentupia canos, montava vidros nas janelas, arranjava fogões e autoclismos. Tinha duas grandes qualidades: resposta rápida e eficiência. No número 7 havia a Farmácia, onde pontuava o carismático farmacêutico, o Senhor Sousa. Magro e com grande dinamismo manipulava com perícia as composições galénicas na oficina da farmácia. Como trabalho adicional percorria o bairro para dar com muita arte as injecções aos necessitados. O senhor Sousa levava consigo o estojo com seringas de vidro e agulhas, que fervia em casa dos clientes, embora muitas famílias possuíssem as suas. Nessa época desconhecia-se as hepatites B e C e não havia SIDA. No número 9 havia o talho e ao lado a Leitaria do Senhor Salvador onde consumíamos grandes quantidades de rebuçados com os bonecos da bola. A finalidade era preencher a caderneta para ver se ganhávamos a bola de futebol. Era uma ilusão ficávamos pelas de borracha. Seguia-se o número 11 com a mercearia do Senhor Ferreira e um sapateiro remendão (posteriormente passou a sapataria). No número 15 ficava a mercearia do Senhor Armando. Homem simpático, o senhor Armando pouco se modificou ao longo dos anos. No número 17 havia o lugar de fruta da Dona Quitéria e a padaria. No número 21 situava-se a Barbearia. Primeiro dirigida pelo senhor Aires, com quem embirrava por me chamar russo de mau pelo, o que considerava pejorativo e posteriormente pelo Senhor Ferraz. Este tirou um curso de “Hautte Coiffure” e introduziu na barbearia o corte Hardy de que muito se orgulhva. Mais adiante, no número 25 havia dois estabelecimentos comerciais: o lugar de fruta da Senhora Maria e o sapateiro remendão, o senhor Augusto. A mulher deste postada à porta da sapataria vigiava atentamente o movimento da rua. Estas lojas ficavam frente a frente com o número 22 que era o prédio onde residia. A Senhora Maria tinha dois rafeiros: o Fininho e o Tejo. O primeiro apanhou esgana e ficou com um tremor que parecia bater a compasso com a música da taberna. A filha do Senhor Augusto, a Maria Augusta, após a adolescência e graças a sua extrema elegância, incendiou alguns corações dos jovens do Bairro. Logo a seguir, no número 27, vinha a taberna e carvoaria. A taberna era o lugar de poiso dos múltiplos carroceiros que se dirigiam para a quinta do Senhor Daniel. A música e o futebol em altos berros ouviam-se na minha casa. O comércio local terminava aqui, embora no 37 houvesse um leiteiro extremamente obeso, o pai do Génito.

De quando em quando, o filho do senhor Daniel, com chapéu ribatejano na cabeça, montava um cavalo e investia a galope ao longo da Ressano Garcia. Para que todos admirassem a sua perícia gritava alto e abria os braços largando as rédeas.

Era assim o Bairro Azul dos anos 40 e 50.

Luís Afonso Dutschmann
Dezembro de 2006

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