João Francisco Amiguinho Passareiro – A criação do Corpo de Segurança Pessoal

[João Amiguinho Passareiro nos Dias da Memória da Polícia, no Museu da Polícia, a 8 de julho de 2016]

João Francisco Amiguinho Passareiro nasceu em Santa Eulália, freguesia do concelho de Elvas, distrito de Portalegre. Entrou para a PSP em 1960 e  foi para a Angola, tendo permanecido três anos na Companhia Móvel. Ao fim desse tempo incorporou os quadros da polícia de Angola. Voltou a Portugal em 1975.Fez parte da equipa que montou a segurança da Presidência do Concelho de Ministros e da equipa que criou a Divisão de Segurança Pessoal.

“Vim para Lisboa aos dezoito anos, vim para a tropa, como voluntário para Lanceiros 2, onde estive dois anos. Estive na polícia militar, depois fiz a escola de cabos e não fui logo promovido, senão tinha seguido a carreira militar. E não concorri. Vim concorrer à polícia, fiquei bem classificado, fui chamado e, portanto, mandaram-me com guia de marcha. Depois fui para Alcabideche, com três escolas de alistados, dali, depois, fomos para a Parede. Era tudo espaços cedidos pelo exército. Era um quartel militar, de artilharia, na altura. Depois desse alistamento foi uma companhia móvel, que já existiam, para Angola. Eu não fui. Depois, fizeram o convite para ir para Angola, independentemente da Companhia, e, eu, como queria ir, lá fui”.

“Fiquei em Luanda e, depois de Luanda fui para Novo Redondo, depois fui para Benguela. De Benguela regressei a Luanda, onde fiz a minha vida. Foram três anos que estive na móvel e depois acabei por passar à polícia de Angola. A vida em Angola não era difícil. Nós portugueses éramos de fácil adaptação, quer a tropa, quer a polícia. A nossa função, portanto, era estar no meio das populações, e então fazíamos a nossa função, quer era o policiamento”.

“Também fazíamos deslocações ao interior, onde tínhamos de contactar com as populações. Então, nesses contactos era para saber os problemas que existiam que não existiam, porque nos locais eles tinham o Soba, que era o regedor da Junta de Freguesia, que tomava conta daquele povo, digamos assim. Então, nós contactávamos com as autoridades locais e eles, pois, lá descreviam e, depois, fazíamos o nosso relatório. Ás vezes esse relatório ia para o comando, ia para Luanda, outros iam com extensão para a DGS, para o serviço de informações. Pronto, era distribuído”.

“Depois concorri a sub-chefe e estive na instrução esse tempo todo. Três anos e tal na instrução, a formar os futuros agentes, quer brancos quer negros, lá de Angola. Começou a haver uma certa abertura. Dali, depois sou promovido a chefe, fui para Carmona, Uige, corri o distrito todo. Também estava numa secção que eram os serviços técnicos ou policias, que eram informações. Aí dirigia-me aos departamentos policiais, em visita oficial, também para saber o estado da situação, os problemas que eles tinham, fazia um relatório, entregava no comando, que fazia uma análise da situação, depois ia para o departamento de pessoal. Depois, consoante os assuntos eram tiradas fotocópias e eram endossadas para cada departamento para fazer nova análise.

“Voltei com a descolonização e uma saída muito precipitada. Isto é, sou promovido a comissário, vou para o Luso, que era em Moxico. Depois, dali, criaram um centro de instrução no Bie, que era uma colónia penal no Capolo, que ficava a sessenta quilómetros do comando distrital. Depois, dali, fui comandar o centro de instrução, onde havia setecentos indivíduos já naturais, portanto, que tinham doze pelotões a sessenta homens, que eram setecentos indivíduos, mais o staff de apoio, que era a parte técnica e administrativa. E dali … depois acabei por ter de me vir embora à pressa, porque aquilo gerou-se lá uma confusão que ninguém se entendia”.

Em Lisboa, ingressou novamente na PSP  e foi fazer uma formação na Scotland Yard para formar a secção de Segurança Pessoal. Quando regressou a Lisboa ficou responsável pela segurança da Presidência do Conselho de Ministros: “Aquilo era um edifício destinado à habitação que depois transformaram em Gabinetes. Isto no tempo da AD, em que era Sá Carneiro e Freitas do Amaral. Um no último piso e outro no quinto. Dali, tive de tratar de tudo o que estivesse relacionado com a segurança, implantar a segurança, credenciação, criar tudo de novo, […] Isto foi após o 25 de abril, o que não foi nada fácil, pois, imperava a política, isto é, os partidos. Mas, lá se criaram as condições. Os primeiros cartões a emitir, para dar o exemplo, foi ao Dr. Sá Carneiro e ao Dr. Freitas do Amaral e depois começamos a fazer o levantamento e toda a gente ficou certificada. Criou-se os princípios da segurança no edifício”.

“Depois, dali, criamos o Corpo de Segurança Pessoal. Corpo não, GOI, que era o Grupo de Operações Especiais de Lisboa, em Lisboa,  que foi constituído por mim e por alguns sub-chefes e alguns guardas que estavam aqui no Governo Civil, nos serviços especiais, que eram os serviços de informações, de justiça. E nas divisões, que havia pessoal também já especializado, com outros conhecimentos. Não era qualquer agente, não é, porque é um serviço especial. Depois, dali, tirei um curso de proteção pessoal, dado pelos ingleses, em parte. E depois, dali, qualquer entidade que vinha a Lisboa, ou por todo o país, éramos nós que fazíamos a proteção pessoal.”

“Nós chegamos a ter aqui, Presidência da República, Assembleia da República, Casa da Moeda, Presidência do Conselho de Ministros, do qual eu era responsável, e mais, a estrutura toda na proteção das instalações dos embaixadores, nas embaixadas, os membros do governo, tinhamos seiscentos homens na rua. A área da segurança é uma área muito sensível e para se exercer a função de segurança tem que se estar preparado. A pessoa tem de ter formação”.

Estava no Corpo de Segurança Pessoal quando ocorreram os atentados contra a Embaixada da Turquia, Embaixada de Israel e o acidente de Camarate. Em relação ao episódio de Camarate, o atentado ao avião em que morreu Sá Carneiro: “Ele era Primeiro Ministro nessa altura, e, então, há coisas que nos transcendiam ou que não passavam por nós, que deviam passar, inclusive. Portanto, o avião veio de Tires. Se houve segurança ao avião? Sei que prepararam o avião, arrancaram. O chefe Costa, na altura que era o responsável pela segurança, estava para embarcar, para ir com ele para o Porto. Não ia equipa nenhuma, ia só ele, mas acabou por não embarcar”.

Em 1985 deixou a PSP  e foi trabalhar para a área da segurança privada, tendo criado uma empresa de segurança, utilizando os ensinamentos que adquiriu ao longo da sua carreira.

 

Registo: Martim Arinto.

Entrevista realizada por: Ana Sofia Ferreira.

Entrevistado: João Francisco Amiguinho Passareiro.

Câmara: Luísa Seixas.

Entrevista realizada a 8 de julho de 2016.

Texto: Ana Sofia Ferreira.

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