Conceição Rosa de Oliveira Dias – 36 anos na Divisão de Trânsito

[Conceição Dias nos Dias da Memória da Polícia, no Museu da Polícia, a 8 de julho de 2016]
Conceição Rosa de Oliveira Dias nasceu em Penafiel. Aos dez anos, quando acabou a quarta classe, foi trabalhar para o Porto e aos dezoito anos veio para Lisboa, onde tinha as irmãs e o irmão. Decidiu ingressar na PSP porque viu um anúncio na televisão a recrutar agentes e resolveu concorrer. Entrou na Escola Prática de Polícia em 1973 e esteve na Divisão de Trânsito durante trinta e seis anos.

“Estive na Divisão de Trânsito. No princípio andávamos na rua, entrávamos às 8 da manhã e saíamos às 14, uma semana assim, e na outra semana entrávamos as 14 e saíamos às 20. Fazíamos muito serviço no trânsito, na Avenida da Liberdade. Fazíamos também serviço de sinaleiro.Todas tínhamos de fazer. Não era nenhuma sinaleira, portanto, os sinaleiros eram os homens que nos ensinavam. Nós fazíamos tudo. Tínhamos de coordenar o trânsito, como fazem os semáforos agora”.

O pessoal da Divisão de Trânsito também fazia serviço no aeroporto durante dois meses no ano: “Nós éramos sempre obrigados a ir para o Aeroporto dois meses por ano para conseguirem fazer a escala. Então, quando vinham os aviões russos, que eram da Aeroflot, aí é que fazia pena, porque vinham só com a malinha, mal vestidas e traziam…, enquanto os outros traziam…eles só traziam um vale para beber um sumo e comer uma sandes. Era o que eles traziam. Iam sempre todos em filinha, naquela direção. Quando eles vinham nós já sabíamos que eles estavam ali assim”.  Um dia um cidadão russo que vinha num voo da Aeroflot pediu-lhe, em espanhol, para falar com a superior dela pois queria um salvo conduto para poder circular livremente no aeroporto: “ Então, ele explicou ali rapidamente: a mulher era russa, ele era espanhol. A mulher estava em Espanha e ele estava na Rússia, porque ele estava a trabalhar. Era um alto quadro da Rússia e não os deixavam estar juntos, portanto, tinham de estar separados um do outro para ele não vir. E ele queria ver a mulher e não queria voltar para lá. Foram falar com ele, que só lhe podiam passar o salvo conduto por meia hora e ele disse: eu não preciso de meia hora, só preciso de dez minutos. Então, passaram o salvo conduto, ele saiu do aeroporto, foi-se embora e nunca mais soubemos nada”.

“O 25 de abril … eu estava na Camarata na Pampulha. Levantamo-nos de manhã e vimos que estava assim tudo muito esquisito, não havia transportes, não havia nada. Começamos a perceber que alguma coisa não estava bem. Houve ali assim uns dias em que realmente a gente não sabia o que ia acontecer.”

“Depois, no ano seguinte, foi o 11 de março. Eu estava na rua e vieram-nos buscar. Eu estava na Praça da Figueira e vieram-nos buscar para irmos para a Direção Nacional, porque ia haver uma Revolução. Estivemos lá todo o dia, também. Eu entrei às oito da manhã Praça da Figueira e às onze vieram buscar o pessoal para ir todo para cima. Ficamos lá até à meia noite. Ficamos lá a ver qual era a situação. Depois, havia aqueles dias em que nós não sabíamos muito bem o que fazer. Os comandos também não sabiam. Estava tudo muito desorganizado, estava tudo sem saber o que é que ia acontecer, portanto, estávamos assim num impasse grande. Depois, as coisas foram começando a voltar ao normal.

Depois do 25 de abril de 1974, havia muitas manifestações: “Andávamos sempre nas manifestações, pronto, quando havia aquelas manifestações tínhamos de cortar o trânsito para eles passarem mas nunca tive problemas, também. Houve uma altura em que houve aqui uma grande manifestação, que foi aqui no Camões, morreu também um civil, e mandaram gás lacrimogéneo. Foi complicado. Eu estava aqui na Rua Capelo, aqui na Baixa Chiado, e mandaram-me embora”.

Conceição Dias guarda diversas fotografias que registam a memória do seu percurso profissional, como Agente Principal, durante 36 anos.

As primeiras três fotografias retratam o seu Juramento de Bandeira, em 1973, na Escola Prática da Polícia, no Calvário. Este juramento corresponde ao 2º alistamento de agentes femininas na PSP.

 

 

 

 

 

 

A fotografia da agente (com o número de ordem) foi tirada para colocar no mapa de serviço da Divisão de Trânsito, em 1973. Conceição Dias esteve nesta Divisão nos 36 anos que se seguiram.

 

As quatro fotografias em baixo ilustram diversas solenidades da polícia em Lisboa, entre 1974 e década de 90 do século XX, nas quais Conceição Dias participou.

A agente conserva ainda na sua posse duas fotografias do Agente Principal António Manuel Caleiro Lança, no Corpo de Intervenção (Calçada da Ajuda), nos anos 90 do século XX.

 

Registo: Martim Arinto.

Entrevista realizada por: Graça Barradas.

Entrevistado/a: Conceição Rosa de Oliveira Dias.

Data da entrevista: 8 de julho de 2016, Museu da Polícia.

Digitalizações: Rita Guerra.

Texto: Ana Sofia Ferreira e Rita Guerra.

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