Ciclo Memória e Cidade – Cidades em Transição: lugares, memórias e percursos de vida

As cidades de Lisboa e de Barcelona têm em comum uma história longa, de implantação territorial milenar, e experiências recentes de um crescimento acelerado e intenso que sacudiu as suas existências ao sabor de múltiplas intervenções públicas e privadas que se foram estendendo por territórios cada vez mais distantes da urbe original.
As comunicações dos dois conferencistas foram pensadas no âmbito do Ciclo “Cidade e a Memória das Avenidas”, projecto desenvolvido no IHC/FCSH-UNL, e serão centradas na interpretação de como os lugares da cidade estão intimamente associados às memórias de quem neles residiu ou neles “fez vida”. Estas memórias estão presentes não só nos percursos de vida destes mas igualmente incrustadas na morfologia e na organização destes territórios. Os conferencistas centram as suas reflexões em experiências de investigação que realizaram nas duas cidades e a partir das quais levantam algumas hipóteses acerca das cidades que temos e de como os processos de mudança rápida do século XX as fizeram ser o que são hoje.

Em cada uma das cidades serão delimitados dois tipos de contextos territoriais para sustentar a ideia que os elementos identitários emergem como resultado conjugado da memória individual e da memória colectiva.

No caso de Barcelona, a partir da metáfora do palimpsesto, procura-se mostrar de que forma as cidades se fazem e refazem num processo interactivo permanente, a partir da demolição de edifícios, monumentos e dos alinhamentos da cidade antiga, para fazer emergir novas formas de urbanismo. Recorrendo ao caso do bairro do Raval como referente empírico, é analisado o processo de transformação deste bairro que segue os ditames do urbanismo neoliberal, a partir da metáfora de Jaume Franquesa de “vaciar y rellenar”. Como se constitui então o discurso prevalecente (memória oficial) sobre o passado do bairro que as escavadoras eliminaram? A reflexão terá como base a análise da produção literária, periodística, fotográfica e cinematográfica. Complementarmente a esta memória confrontam-se os pontos de vista de moradores do bairro, que nos explicam os seus sentimentos face à chegada de novos moradores, que os terão encurralado, num claro exemplo de um processo de elitização.
No caso de Lisboa, será focada a especificidade do processo de crescimento das chamadas Avenidas Novas e da relação de proximidade com outros contextos residenciais, nomeadamente o Bairro do Rego, confrontando formas de edificação distintas consoante o estatuto social do lugar, definido a partir de quem o reside e a quem é destinado. A transformação destes dois contextos contíguos ao longo do século XX permitirá reflectir sobre a continuidade da segregação territorial mas também acerca das formas de renovação que afectam os lugares re-equacionando-os no contexto da metrópole residencial e da cidade turística.

No que diz respeito ao outro tipo de contexto de análise, designável como “metropolitano”, serão focados os efeitos da expansão do urbanismo (neo)liberal. É sabido que o urban sprawl gera as condições para um processo massivo de ocupação do território peri-urbano e regional, para consolidar as chamadas áreas metropolitanas. No caso da Região Metropolitana de Barcelona (RMB), esta nova realidade também gera processos identitários, que serão ilustrados nesta apresentação por testemunhos sobre a mobilidade quotidiana, a plurilocalização e o enraizamento em territórios e que, em contraste com as fortes identidades locais do passado, que se opunham às da capital, assentam agora em dinâmicas de elitização, nuns casos, e de guetização suburbana noutros. No caso da Região de Lisboa, será focado o modo como certas marcas identitárias do passado foram reapropriadas a nível autárquico no sentido de definir uma autonomia face à cidade que se vai aproximando. O desafio que se coloca aos concelhos limítrofes da capital é o de serem apenas periferias no âmbito metropolitano ou lugares de identidade com base nas suas memórias pré-urbanas. Esta análise será perspectivada a partir de exemplos como o da região saloia.

Conferencistas: Joan J. Pujadas e Luís Baptista

Data da conferência: 9 de fevereiro de 2017

Edição de áudio: Ana Campos

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