Carlos Alberto Coelho Lima – “adorei ter servido na polícia”. Um oficial do exército no comando da PSP

 

[Carlos Lima nos Dias da Memória da Polícia, no Museu da Polícia, a 8 de julho de 2016] Carlos Alberto Coelho Lima

“Adorei ter servido na polícia”. Um oficial do exército no comando da PSP

Carlos Alberto Salgado Coelho Lima nasceu no concelho de Guimarães. Entrou para a Academia Militar em 1963 e esteve dezoito anos no exército, tendo feito duas comissões e meia em África, durante a Guerra Colonial. Em 1981, foi convidado a ir para a PSP para comandar a 4ª Divisão de Alcântara. Comandou também o comando de Faro, a divisão de Segurança Pessoal e foi responsável pela segurança da Presidência da República no mandato de Jorge Sampaio. Foi também o primeiro português a comandar a polícia da ONU no âmbito da missão de Paz das Nações Unidas em Timor.

“Entrei para a Academia Militar em 1963. Quando chegou a altura, nesse anos, vieram vários indivíduos, mas vários, vários, para a Academia Militar. Eu fui um bocado na onda com eles, porque eu não tinha nenhuma vocação especial. Não tinha nenhuma vocação para nada, nem para militar, nem para advogado, nem para médico, nem para nenhuma coisa.

Esteve no exército de 1963 a 1981: “Eu comecei a pensar: se eu ficar no Exército vou ser major mais sete, oito ou nove anos. Depois, passo a coronel e como se costuma dizer, um coronel é um cadete que não morreu. Portanto, normalmente, um cadete que não morreu chega até coronel. As progressões são por antiguidade, não é preciso fazer concursos nem nada. Na polícia eu vinha comandar uma divisão e, nestas coisas, o que é bom é ser comandante”.

“Fui comandar a 4ª Divisão de Alcântara. E devo dizer-vos que adorei ter servido na polícia. Tenho muito orgulho nesta malta. Sinto-me muito bem com os polícias. Estou com eles todos os dias, falo com eles”.

“Eu cheguei à 4ª Divisão, tinha trinta e oito anos e encontrei agentes com cinquenta, com cinquenta e cinco, mulheres, o que no exército não havia, casados, divorciados, separados, com violência doméstica, com filhos metidos em gangs, drogados, pá, com filhos alcoólicos, pá, com isto tudo. Quer dizer, o que há cá fora há na polícia. Portanto, e comandar esta gente é completamente diferente de comandar o exército. Ali em baixo, na 4ª Divisão, comandei à volta de quinhentos homens, em quatro esquadras, e eu sempre tive a mania de me ligar muito aos meus homens. Não sei se é bom, se é mau. E nunca gostei muito de estar no gabinete. Gostei mais de andar na rua. Gostava de andar na rua, de noite, de dia, eu visitava muitas esquadras”.

“A minha área era Avenida da República, Avenida de Brasília, Autoestrada até Algés, a parte sul. Tinha ali a Assembleia da República, a residência do Primeiro-Ministro, a Presidência do Conselho de Ministros, a Presidência da República, portanto, todas as manifestações eram ali comigo. [..] Eu adorava aquelas manifestações grandes e organizadas pela CGTP. Eu preferia essas grandes do que uma de dez com mulheres grávidas. Porquê? Porque, se ali estão cinco mil, a CGTP organizava aquilo e tinha a própria segurança deles. Eu cheguei a ver alguns a ser agarrados por eles e a serem tirados dali. Aqueles que aproveitavam para beber uns copos. No fim, cumprimentavam-nos muito bem”.

Do comando da 4ª Divisão passou para a Divisão de Segurança: “Na Divisão de Segurança, fazia a área de Segurança. Tinha três secções: duas de fardados e uma à civil. Fazia a segurança física das residências oficiais: Presidente da República, Assembleia da República, residência oficial do Primeiro Ministro, Casa da Moeda, das embaixadas todas de Lisboa, exceto no Restelo, e residências dos embaixadores e dos ministros. E o pessoal à civil, fazia a segurança pessoal das entidades nacionais e estrangeiras que viessem a Portugal. Eram seiscentas e tal pessoas, pá. Eu também de Segurança Pessoal pouco sabia. Li muito”.

De seguida, foi convidado para o comando de Faro, onde se manteve até ser convidado para ser o responsável pela segurança do Presidente da República Jorge Sampaio: “o candidato a Presidente, Jorge Sampaio, foi lá [a Faro], também tenho aqui uma carta a agradecer o serviço, e perguntaram se eu queria ir para responsável de segurança do Presidente da República. O senhor Presidente depois, quando foi eleito, foi falar com os superintendentes, fazer o casting e ele escolheu-me a mim. Mas, com o Presidente correu mal. Ao fim de menos de dois anos vim embora, porque eu não posso … não posso … nunca deixei que me pisassem, que me pusessem os pés na cabeça. Nem a mim, nem aos meus homens”.

“Bom, depois da Presidência da República, vim aqui para Lisboa, para esta casa, como oficial de operações. Apanhei ali a Expo. Vim como segundo comandante, que trata da parte administrativa, e já é mais sossegado. Não tenho assim grandes histórias daqui, grande coisa. Fui operacional de operações, portanto, responsável pelas operações todas que aí havia, andava sempre na rua”.

Em 1999 recebeu o convite para comandar a polícia das Nações Unidas no âmbito da Missão de Paz em Timor: “Fui o primeiro português a ser nomeado para uma missão destas, nunca ninguém em Portugal tinha tido estas funções, portanto, eu fui o primeiro português a comandar a polícia das Nações Unidas, que é uma coisa que me enche um bocado de vaidade Mas, fui e nem a polícia, nem o Ministério, nem as Nações Unidas me deram uma palavra só, uma palavra só, sobre aquilo que eu ia fazer. Como é que se vai para uma missão destas assim? Isto deve acontecer? Ninguém falou comigo. Ninguém. Cheguei lá e fui falar com o Sérgio Vieira de Melo, que era brasileiro, e era o representante do Secretário Geral das Nações Unidas. Ele pôs-me logo há vontade, que não havia problema nenhum. Depois, eu fui conversando com a malta, com os meus homens … eles eram mil e seiscentos homens, de quarenta e três países diferentes, de todo o mundo, de todo o mundo. E, não foi fácil. Correu muito bem, graças a Deus. Correu tudo muito bem, graças a Deus e aos meus homens, extraordinários, pá. A malta da polícia é extraordinária, pode crer que é. Para um português comandar aquela tropa toda é um bocado complicado. Depois, os americanos, alemães, russos, ingleses, pá, canadianos, suecos, tudo uma coisa…E, então, uma das primeiras missões que tivemos, o Sérgio Vieira de Melo queria que, rapidamente, abríssemos a Escola de Polícia. A Escola de Polícia em Timor. Não havia nada”.

Apesar da pressão para escolher um polícia de outra nacionalidade para responsável pela criação da Escola de Polícia, nomeou um português:  “Eu sou o responsável, a decisão é minha e vai o Carrilho. Eu quero lá um português, pá. Eu quero lá um português, porque a malta, muitos falam português, os portugueses conhece, pá. Porque o timorense, o timorense é, como eu costumava dizer, é um bocado africano. São fáceis de comandar se estiverem sozinhos. Os africanos são ótimos de comandar.  Nessas coisas, são um bocado parecidos. Portanto, e nós, os portugueses, os portugueses, os polícias e os militares, somos os melhores soldados do mundo lá fora. Não há como o português para trabalhar lá fora, seja o polícia ou seja o que for. Tem jeito, o português tem jeito para aquilo, tem jeito, sabe lidar com os autóctones, com as pessoas, sabe, tem jeito, naturalmente. Foi na Bósnia, foi no Kosovo”.

“Portanto, quando lá cheguei, a distribuição era feita por nós, havia três distritos e mandei pôr dois portugueses em cada esquadra. Foram dois para cada. E o Carrilho foi para lá. Isto foi em meados de janeiro, quando se começou, talvez. Sabe quando é que abriu a escola, quando é que começou o primeiro curso da escola, lá em Timor? Estamos em janeiro, não havia nada, nem instalações, nem cadeiras, nem livros, nem fardas, nem horários, nem manuais, nem instrutores, nem camas, nem messe, nem carreira de tiro. Quanto tempo é que vocês acham que se deve dar para montar uma coisa destas? Isto foi em meados de janeiro. Iniciou em 27 de março, 27 de março. Dois meses depois. Dois meses depois, começava a primeira escola. Isto só foi possível porque estava lá um português, não tenho dúvida nenhuma. O Carrilho era um funcionário extraordinário, tinha o apoio da malta, mas ele é que fez a escola. Aliás, este é um caso que é falado nos manuais das Nações Unidas, a abertura de uma escola em dois meses. Teve de ser fazer seleção, o recrutamento, a seleção, tudo, tudo. Aliás, foi o primeiro organismo oficial a abrir em Timor. Foi a Escola de Polícia. Foi o primeiro. Portanto, a coisa correu bem nesse aspeto”.

“Outra coisa que eu fiz, que me correu muito bem, graças a Deus, foi aquilo, eu não gosto, gosto de andar na rua, e gabinete nunca gostei, como já vos expliquei, falei lá com o Paulo Martins, que era o rapaz que fazia a ligação com o CNRT. Falei com ele, e, então, começamos a fazer aos Domingos, comecei a pregar aos peixinhos. Ele juntava os chefes dos bairros, juntávamos debaixo de uma árvore, quando não havia uma sala, e eu ia lá e falava durante uma hora. Pregar, ia pregar. Ia dizer o que eram as Nações Unidas, o que estávamos lá a fazer, o que era a polícia, o que é que nós estávamos a fazer, o que é que nós queríamos deles, como os podíamos ajudar, como é que eles nos podiam ajudar, como é que se vivia, como era a polícia num país democrático, qual é o papel da polícia, aquela coisa, um bocado, pronto, de sermão. Depois, na segunda hora, eles faziam perguntas”.

Em Timor, foi também responsável por colocar em todas as esquadras um elemento com formação para o atendimento a vítimas de violência doméstica: “Nos papeis das Nações Unidas lá consta que, nas missões todas, em todos países do mundo, a primeira a ter esta valência do atendimento às pessoas vítimas de violência doméstica foi em Timor”.

Registo: Martim Arinto.

Entrevista realizada por: Ana Sofia Ferreira.

Entrevistado: Carlos Alberto Salgado Coelho Lima.

Câmara: Luísa Seixas.

Data da entrevista: 8 de julho de 2016.

Texto: Ana Sofia Ferreira.

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