Arménio Eusébio

“A alegria de votar pela primeira vez”

Gostaria de partilhar convosco o que vivi no dia 25 de Abril de 1975, aquando das primeiras eleições livres.
Tinha então 14 anos e acompanhei o meu pai a uma assembleia de voto em Vila Nova de Gaia. Não ficava muito longe da nossa casa, mas tivemos que nos deslocar de autocarro, numa viagem de mais ou menos 5 km e que durou cerca de 20 minutos.
O meu pai tinha 54 anos (exactamente a idade que tenho agora) e estava extremamente feliz porque era o dia do aniversário do seu casamento (18 anos de uma excelente relação conjugal) e porque, pela primeira vez e em liberdade, poderia usar o poder do voto.
Contribuir activamente para o futuro do seu país, realizando o sonho que a democracia lhe estava a proporcionar, deixava-o radiante. A sua felicidade era de tal forma contagiante que até eu, sem poder votar, estava eufórico.
Esperámos mais de 3 horas, numa fila interminável, até chegarmos às mesas de voto, mas, apesar do tempo de espera, lembro-me que não foi cansativo. Passei o tempo a ouvir histórias sobre o passado (a era salazarista e o primeiro ano de liberdade) e conversas sobre as expectativas para o futuro. O optimismo imperava e a esperança numa vida melhor havia renascido. Os medos de falar em público e de um país em guerra tinham desaparecido e o povo estava de tal forma motivado que o cansaço sentido ao permanecer de pé durante tantas horas não era sequer mencionado.
Não me lembro de ter visto a polícia nas imediações, mas também não foi necessária a sua presença porque o civismo estava na ordem do dia.
Quando chegámos à mesa de voto e após a identificação e confirmação do nome nos cadernos eleitorais (com a pompa e circunstância que o momento merecia), o meu pai recebeu o boletim de voto das mãos do presidente da mesa e dirigimo-nos à câmara de voto (sim, também fui… mesmo sabendo que não deveria). Vi-o colocar a cruz no quadrado respectivo porque o meu pai, orgulhoso, fez questão que eu visse. O boletim foi, meticulosamente, dobrado em quatro e colocado na urna. Quando saímos, reparei que a fila ainda se mantinha enorme, pelo que quem estivesse a chegar iria ter o mesmo tempo de espera.
Foram momentos inesquecíveis num dia que ficou na memória por muitos e bons motivos.
Obrigado por permitirem a partilha destes momentos tão importantes e tão felizes.

Relator: Arménio Eusébio
Autor: Arménio Eusébio; Pedro Serra

Deixe uma resposta