Anabela Quitério Ribeiro

É num contexto de guerra, de fome, corrupção, pobreza, e pouca cultura, defendido por Salazar, “DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA”, que meu pai nasce. O meu pai (António dos Santos Ribeiro) era o mais velho de 8 irmãos, nascido em 12 de Agosto de 1935, contava que as dificuldades eram tantas que apesar dos meios de subsistência saírem sempre do trabalho do campo, e de todos em casa, quando uma sardinha era posta na mesa, a sardinha era para dois filhos em cima de uma fatia de broa de milho.
Os irmãos saiam bem cedo com o gado, comiam uma sopa de unto, que era composta por água fervida, com uma colher de banha, couves migadas e uma broa esfarelada, dentro da malga.
O meu pai contava-me que naquele tempo deixavam as crianças junto ao cemitério para controlarem quem passava por ali, desta forma davam o alarme da vinda dos guardas florestais. Enquanto estes não apareciam os adultos podiam fazer o contrabando de géneros, entre Portugal e Espanha, de tabaco e outros produtos.
No Verão as pessoas iam para as vindimas do Douro, que apesar de o trabalho ser árduo também era divertido pois havia bailes que animavam um pouco as pessoas, inclusive o meu pai, pois tinha uma gaita de beiços (harmónica) e sabia tocar muito bem.
Todavia, o futuro não era auspicioso para ninguém que quisesse sonhar um pouco mais alto, aprender mais do que ser lavrador, ser crente a Deus, e defender e ter amor à Pátria.
Por isso seus irmãos decidiram que iriam para a cidade de Lisboa e aí tentar trabalho, tentar a sua sorte. Em Lisboa havia a fábrica do açúcar, a dos telefones, apenas ficaram na terra dois irmãos com as suas terras e sua família pois decidiram ser agricultores como os pais.
O meu pai, que sonhava mais alto, e não podendo sair do país de outra forma, na tropa seguiu como Voluntário para a Índia, para em nome da Pátria defender as colónias portuguesas: Goa, Dio e Damão. Ali prestou serviço militar.
Mais tarde (Anos 60) foi para Angola (Luanda, Amboim) para mais uma comissão de serviço onde conhece a minha mãe, Maria Isaurinda de Sousa Quitério, filha única de Manuel de Sousa Quitério e de Maria Alda, nascida em Pinheiro de Marim, Olhão em 28.04.1940. Filha de mãe que era operária Conserveira e de pai, pescador/mariscador.
Por cá (Portugal) as opções eram poucas e para os homens muitas vezes a opção era ir para a guerra ou fugir.
Muitas famílias foram para o interior de Angola, para se dedicarem a lavoura, fazendas de café, de cana de açúcar, de abacaxi, exploração de minério, águas termais, caminhos de ferro e tirar proveito dos recursos naturais.
Outras famílias escolhiam dedicar-se à vida no mar.
Nas grandes cidades desenvolviam-se trocas comerciais, plataformas de exploração de petróleo ao largo do oceano, americanos também trabalhavam lá. O caminho de ferro desenvolvia-se para o interior, sendo vantajoso nas trocas comerciais.
Havia diversas desvantagens, tal como o clima, as doenças tropicais, o isolamento de quem vive no interior de Angola, porque para se chegar a algum lado em que se encontrem pessoas, igrejas, eram preciso percorrer quilómetros e quilómetros numa imensidão de terra, morros, planalto, deserto do Namibe, chuvas torrenciais, sol e animais no seu habitat natural.
Em 1962, os meus pais casaram.
A seguir o meu pai segue para Huambo e a minha mãe de trouxa de seu enxoval às costas vai com ele. Assim era a vida das mulheres de militares, acompanhar os seus maridos, garantir Paz na família, usar, costurar e aproveitar tudo o que eram recursos até à exaustão e compreender o quanto era muitas vezes desumano para os seus homens o estar na tropa a defender a Pátria muito amada, e seu império de conquistas quinhentistas, das colónias portuguesas. E lá foi o meu pai para mais um tempo perto do quartel de Nova Lisboa, Bairro Santo António. Em 1963 nasci eu, em casa, ajudada pela vizinhas e pelo meu pai.
E o meu pai fazia mais uma viagem pelos quartéis, comissões, mato, e mais mato, em precárias condições, muita guerra e água suja pra beber. Sendo ele 2º sargento eram exigidas certas responsabilidades militares em Luanda.
Em 1972 já com 3 filhas, e tendo concorrido para os quadros administrativos do estado como administrador de Posto no Enclave de Cabinda, vamos nós todas com o pai, passamos vila Guilherme Capelo- Landana, e para o tal Posto de Administração do Dinge, onde o meu pai ficou colocado. Este, era um posto Administrativo, que faz de registo civil, notário, obras e prisões por desacatos. O meu pai era obrigado por inerência de cargo , a estudar direito administrativo, leis, e tinha como ajudantes os cipaios, que eram cidadãos locais que eram colocados no Posto pra trabalharem com o chefe de Posto.
Chegamos finalmente a casa. A minha infância consistia em estudar, comer bananas em cacho (tiradas da árvore), manga, aprender a andar de bicicleta, a brincar com os coelhos e galinhas, pois tínhamos criação. Aliás, eu até tinha uma mascote que era a minha galinha Palmira, que desde que saiu do ovo andava sempre comigo. Eu ia aos campos de café e comia o café ainda em bago, docinho, brincava na sanzala, aprendia as lengalengas na sanzala, dançava merengue, trocar o pão com doce que a minha mãe fazia com a comida de peixe seco, mandioca azedada no rio e fervida. Depois eram aqueles bolos que secavam ao sol, ai as moscas – mas não pensava nisso, andava por aqueles lugares de “pé descalço ou de chinelo,” matacanhas” nos dedos dos pés. Aii! que comichão!
Não sentia nada de racismo, éramos por volta de 20 crianças brancas para todo um universo de cor negra, mestiços, cabritos, etc.
Quem fazia mais que a 4ª classe deveria ir estudar para o ciclo preparatório, e como não havia escola ali no povo tive que ir estudar para a vila Guilherme Capelo, Lândana, que no alto do morro, tinha a Missão católica feminina, onde fiquei, só ia aos fins de semana a casa.
Entretanto nasce a minha mana mais nova, em Maio de 1974, e finalmente mudámos de casa, que tinha sido acabada de construir com condições melhores…
Além de escola, estudo, e os filmes das bobines, os nossos tempos livres eram ocupados a jogar futebol entre “os solteiros e casados”, ao fim de semana, as senhoras faziam as refeições e os bolos para piquenique, e claro ocupavam-se da lida da casa, e faziam a roupa dos miúdos.
À noite ouvia-se a Rádio, lá não havia televisão, era só a rádio que dava as notícias e onde passavam muita música portuguesa, a radionovela ”simplesmente Maria” entre outras… Entretanto, os conflitos de guerra, andam no Dinge, e à volta, com as guerrilhas das quais eu estava completamente fora do acontecimento, pois não conhecia nada daquilo, e andavam tão perto, que numa noite, houve rajadas de metralhadoras tão perto que atingiram a nossa casa! Baixámo-nos rente ao chão, pois instintivamente o meu pai gritou ‘’CHÃO, CHÃO! TODOS PARA O CHÃO!’’ e rastejando entrámos em casa. Inclusive mais tarde vieram pedir ao povo para dispensar mantas e comida, para os seus acampamentos por perto.
Já o MPLA, FLEC, e Unita, apoiados, claro em armamento, pelas nações dos blocos capitalista e comunista que já tinham começado a apoiar e a financiar as guerrilhas das colónias portuguesas, numa tentativa de as atrair para a influência americana ou soviética, que andavam em guerrilhas frequentes.
As pessoas que viviam perto de nós, inclusive os das sanzalas vizinhas, não queriam ser “mandados por negros” diziam ao meu pai “preto a mandar no preto vai ser a escravidão mesmo, não dá patrão”, até porque o Enclave de Cabinda, foi entregue com o Estatuto de Protectorado, no Tratado de Simulambuco assinado em 1 de Fevereiro de 1885, pelo representante do governo português, Guilherme Capello, então capitão tenente da Armada e comandante da corveta Rainha de Portugal, e pelos príncipes, chefes e oficiais do reino de N’Goyo. Nunca como uma colónia em África.
Enfim… na Rádio, em certas frequências ouviam-se as forças desses movimentos de guerrilha, a fazerem a sua propaganda. Ainda me lembro de ouvir a música introdutória da hora do MPLA—“MPLA , MPLA, ao povo de Angola verdade dirá, MPLA MPLA, a luta continua a vitória é certa” .
Guerrilhas, já com UNITA, a meio e sul do Pais, e eu tão longe de imaginar que a partir daí viria o Inferno para todos…
O meu pai começou a avisar os homens do povo que seria melhor mandar embora as esposas e crianças, para Portugal, pois a coisa estava feia… Já tinham sido mortas famílias inteiras à catanada e a tiro, bebés jogados contra as paredes, as mulheres eram violadas, às mulheres grávidas introduziam um pau ou um ferro para matar as crianças, querendo assim acabar com a raça branca. E ao mesmo tempo viam-se as suas casas a serem consumidas por chamas.

25 de Abril de 1974
Tinha 11 anos, quando a 19 de Setembro de 1974 viemos as cinco, a minha mãe e as minhas irmãs para a Metrópole.
Num avião pequeno a chocalhar e um barulho que fazia mal aos ouvidos… cada um trazia o mais que podia consigo. Lembro-me que quando viemos embora, eu trouxe no forro de minha malinha a tiracolo, dinheiro, e vinha com aquela responsabilidade de que não podia perder a mala… não conseguia despedir-me dos meus livros, que ficaram lá, das minhas amigas, vinha no Land Rover a chorar, a olhar para o céu, que na estrada até Cabinda, tinha as copas das árvores a filtrar o sol. E a minha mãe desolada, com a minha irmã mais nova de 4 meses pensava: O que é isto? O que vai acontecer connosco? Até porque o meu pai ficou na Angola, pois como servidor do Estado, não o deixaram vir. Veio só mais tarde, em 1976.
Fomos abandonados, logo após 25 de Abril, quer fossemos brancos ou negros. Todos os que queriam viver em Paz sem entrega com a “descolonização”, com condições de dignidade, sem guerrilhas, mas simplesmente as tropas abandonaram os locais, deixaram à mercê de fanatismos, e guerrilheiros viciados de guerra, de matança, os civis e os colegas… Quantos não ficaram estropiados e desaparecidos? Até o Jornal editado na época “O Retornado” publicava as atrocidades cometidas aos civis desprotegidos, negros, mestiços, mulatos e brancos… Era indistinto.
E os que ficaram (brancos ou negros recrutados também lá) e os que vieram consideraram que ficavam ou vinham como heróis mas foram enganados, pois consideravam que foram obrigados a defender colónias, que serviam o País e como tal mereciam reconhecimento mas ficaram com marcas da guerra, psicológicas e no corpo.
Após o 25 de Abril em África, acabou com a dignidade de todos civis e militares que participaram no defender da pátria. Acabou com os sonhos de quem queria viver a sua vida normal, de um progresso para Portugal.
Despejados de uma nação que recebeu e viu nascer tantos portugueses, e despojados de seus parcos haveres, destruídos em seus sonhos de uma vida melhor, obrigados a “retornar” para as suas terras natais, e fazendo refugiados dos outros que dessa geração não pertencem, voltaram os que conseguiram a Portugal e ilhas.
Quem teve ligação de alguma forma à terra natal, mesmo que em grande dificuldade, conseguiu integrar-se e os outros não se integravam em lado nenhum… eram encaixados em pensões, hotéis (tudo por má descolonização), foi criado o IARN ”Instituto de apoio ao retorno de nacionais”, que tentava fazer a integração profissional de quem lá trabalhou mas as dificuldades eram muitas e a realidade era tão crua que as pessoas queriam alimentos, roupa, e porque também a família daqui era de parcos recursos, e não tinham disponibilidade de ajudar. Havia filas para receber essas dádivas de outros países, eu estive nessas filas para ter roupa quente, leite e ovo em pó. Nesse inverno o meu calçado foram umas socas fechadas.
Aqui, a malta xingava quem retornou de África com conversas como: “nem devias estar aqui, andavas a matar os pretos” “não mereces a comida que comes” “devias lá ter ficado, agora vens roubar o trabalho dos que cá estão”. Até os miúdos na escola, não nos deixavam ser simplesmente crianças e jovens, faziam apostas com os colegas que cá estavam a estudar em como nos batiam pois eram ‘’os filhos dos que matavam os pretos’’.
Então, em Portugal a liberdade, a terra a quem a trabalha, não passou de slogan — as quintas ficaram sem os donos mas também ficaram sem com quem as trabalhasse, as fábricas fecham as produções… O pão, habitação, saúde, onde estava a melhoria do povo português?!
Liberdade , Liberdade… A quanto obrigaste e destruíste.
As guerras não resolvem nada, mas acho que hoje não somos independentes e não temos liberdade…

Relator: Anabela Quitério Ribeiro
Autor: Anabela Quitério Ribeiro; Filipe Guimarães Silva

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